Arquivos Mensais: julho 2008

Destino: Eisenbahn, Blumenau

(trecho do diário de bordo do oficial imediato)


[Isso foi o mais próximo que chegamos de uma donzela alemã.]

Cheguei ao ponto de encontro, a casa do navegador, um pouco atrasado —o imediato pode se dar a esses luxos—, mestre timoneiro já estava lá, a postos. Boa tripulação. Tomamos um café da manhã servido pela dona Eliani e, depois das recomendações de boa viagem, nos lançamos à estrada.

— Com mil diabos, seus porcos de água doce! Os mapas!

Voltei correndo e tomei as cartas. Entreguei-as na mão do navegador, o sujeito certo para o serviço. Agora estávamos prontos: o timoneiro no comando de sua nau azul, o navegador ao lado, com as cartas náuticas e eu —na falta do capitão— lá atrás, na popa, estirado na cabine dos oficiais. Agora, sim, hora de partir, “bring me that horizon!”

Cruzamos as milhas sem problemas, mestre timoneiro é bom no que faz. O mestre navegador indicou-nos um outro caminho, que aprendeu de seu pai, velho lobo do mar, e acatamos a sugestão.

Vendo a quantidade de cemitérios na estrada, mestre navegador animou-se diante da possibilidade de conseguir uma boa disputa:

— Ô lugar para ter cemitério! Deve haver um bocado de brigas quentes por aqui!

Fomos entrando na cidade e nada de briga. Nada de hordas germânicas furiosas. Nada de donzelas loiras. Nada de construções típicas. Nada de nada. Lugarzinho entediante. Chegamos a pensar que erramos de lugarejo.

Seguimos as placas até a Vila Germânica, onde, agora sim!, encontraríamos donzelas alemãs loiras e ávidas por forasteiros. Nada. Desembarcamos prontos para um quebra-pau com uma horda de bárbaros alemães. Nada. Silêncio. Bola de feno rolando no meio das casinhas de boneca. Devem estar todos escondidos, preparando uma cilada, os sodomitas. Ficamos de prontidão. E onde diabos se meteram as belezinhas do lugar?

Só nessa hora foi que vimos algo de alemâo: uma meia dúzia de lojinhas apertadas com florzinhas na janela e canecos e mais canecos de porcelana para vender. É mais ou menos como o Bar do Alemão, só que ao céu aberto. Toca o tempo todo a mesma música. Boa melodia para se ouvir balançando uma caneca de chopp.


[O navegador testa sua próxima máquina. Born to be wild.]

Como bons cavalheiros, almoçamos num restaurante de classe, que abocanhou uns bons dobrões de ouro. Comemos feito gente grande. Carne, muita carne e especialidades locais: joelho de porco, chucrute, marreco, salsichão. São bons em fazer comida de pirata, os alemães. E mestre timoneiro achou melhor não abusar da picanha ao molho de pimenta.

No parque ao lado, uma festa de motos. Paramos, mestre timoneiro fez uns tests-drives, nada muito empolgante. Definitivamente, ele fica melhor na sua moto preta de bandido.

Sem mais delongas, desistimos de procurar donzelas alemãs e fomos atrás do nosso objetivo de verdade.


[Estilo: ou você tem ou você não tem.]

Rodamos pela cidadezinha como cães caídos do caminhão de mudança. Mestre navegador e mestre timoneiro usaram todas as suas habilidades, mas não adiantou: os malditos bastardos do lugar não sabem como construir umas ruas decentes. Além de não saberem dizer onde fica nada, os sodomitas têm um sotaque de pederastas terrível, pelos ossos do demônio! Melhor desistir de pedir ajuda. Acabamos achando por nós mesmos.

No final de uma curva, chegamos ao X do mapa: avistamos a bombordo a fábrica de cerveja. Ahoy! Mestre timoneiro fez uma manobra ousada e lançamos âncora no estacionamento.


[Bom bar, lugar de família.]

Um sujeito troncudo, aparentemente o chefe do lugar, nos recebeu na entrada da taverna. Como bons cavalheiros, começamos apurando o paladar com um menu degustação, quatro tipos de chope.

No balcão uma alemã —agora sim!— trabalhava para servir os clientes. Bochechas rosadas, cabelo loiro trançado, seios fartos, braços fortes, tudo em fartura. Uma autêntica germânica, a única que vimos na viagem. Apelidei a belezinha de Helga.

Uma outra mocinha veio nos avisar que era hora de visitarmos a fábrica. Conosco entraram um casal de gor…, digo, com ossos largos e uma comitiva de alemães, liderada por um tiozinho que tinha, por baixo, uns sessenta anos só de chopp.


[Boa cerveja!]

Explicações feitas, cervejas demonstradas, provamos os maltes —tão ruins como a comida do navio— e entramos no meio dos barris da fábrica. Mestre navegador garantiu-nos que consegue instalar algo parecido no porão de nosso navio. Não seria nada mau, chopp fresco para a tripulação. É um processo simples, que os sujeitos do lugar fazem muito bem. Deve-se apreciar um serviço bem feito.

No final, a menina tirou do barril um chopp para cada um de nós. Boa garota. Bom chopp. Lá no canto, o casal de entroncadinhos brindava com um gesto que eu não ousaria fazer diante da minha santa mãezinha.

— Saúde, dinheiro e… sacanagem!

Brindaram umas cinco vezes, e a cada vez a gordinha piscava para o maridão. Deve ter um fogo difícil de apagar, a safada.


[Mestre timoneiro aprova a cerveja!]

Antes de voltarmos para o saloon, o tiozinho censurou a moça por não fazer nenhuma explicação em alemão, analisou o barril —3500 litros— com seus olhos de lobo do mar germânico, fez as contas e afirmou, com a categoria de quem já viu muito chope na vida:

— É, esse tanto aí acho que deve durar quase um mês lá em casa.


[Mestre navegador aprova o processo.]

De volta à nossa mesa, começamos a primeira rodada para valer. Depois outra rodada. E outra. E outra. Hora de separar os homens dos meninos. Brindamos aos ausentes, todos eles, que vivam para sempre, os bastardos! No final, brindamos à nossa, aos sobreviventes, “juntos fomos à guerra, juntos estamos no bar.” E a Helga lá no balcão, servindo chopp e salsichão pra alemãozada.


[Qual vai ser a próxima?]

Antes de partir, eu e o navegador tomamos uma decisão: vamos começar o treinamento com o mestre timoneiro e lançá-lo no Campeonato dos Tomadores de Chopp 2009. E depois que ele bater o recorde, o prêmio vai ter que mudar o nome para Alvaro Fonseca Duarte.


[O nome do timoneiro ainda vai ser inscrito nesse quadro com letras de ouro.]

Voltamos para Curitiba sem transtornos. Mestre navegador dormiu no leme como sempre, mas o timoneiro mostrou que é um bom sujeito levando todos em segurança para nossas mãezinhas.

Já na casa do navegador, despedi-me da tripulação, montei na minha moto e tomei o rumo de casa. Bom passeio, boa companhia. Dois sujeitos decentes. Dois grandes sujeitos. Ahoy, me mateys!


[Mestre navegador direto dos filmes de faroeste.]< br />
* * *

Cerveja Eisenbahn, das Bier von Blumenau
Das macht uns stark und schmeckt so gut
Cerveja Eisenbahn, das Bier von Blumenau
Tudo mundo gerne trinken tut

Me dá um chopp, um chopp geladinho
Pois este é o melhor remedinho
Bebendo com moderação
Faz bem pra tudo e é nossa tradição

Lá vem a Eisenbahn
Chopp de Blumenau
Cerveja da região
Lá vem a Eisenbahn
Chopp de Blumenau
Tudo bem, todo mundo alles blau

Ein Prosit! Ein Prosit, mit Eisenbahn!
Ein Prosit! Ein Prosit, mit Eisenbahn!

Um dia de cada vez

[youtube dNNhIRE2TMI]

Repeti o Video. Mas a música é muito boa. A letra tem aqui

Posso fazer uma pergunta?”

“Sim, claro.”

“Você está bem?”

E foi assim. Mais de um mês atrás, na véspera do meu aniversário. Ela não teve dó de mim. Perguntou e ficou ali, esperando algo como uma resposta.

“Eu sou tão transparente assim?”

“É.”

Na hora eu me perdi em verborragia. Tentei de todas as formas enrolá-la. Mudava o assunto de um tópico a outro, pulava de tema em tema passando por várias coisas que eu fiz, para evitar responder. E ela me deixou falar. Me deixou tagarelar. Esse truque tagarela funcionava na maioria das vezes. Era só trocar de assunto algumas vezes que os ouvintes se perdiam. Quando eu cansei de falar, ela falou novamente.

“Você não me respondeu.”

“…”

“Você não me respondeu.”

“É. Poxa, eu sou tão transparente assim?”

“É.”

Na hora, no susto, eu não consegui responder. A pergunta dela fez minha cabeça girar. A metralhadora tagarela que eu liguei depois era uma prova disso. Ela me pegou desprevenido e parecia se divertir com o meu pânico. Enquanto isso ela ficava ali só olhando, só ouvindo.

Mas de um mês passou e essa é a resposta para a sua pergunta:

A base continua a mesma, as idéias continuam as mesmas, os sonhos, os mesmos.

Mas muita coisa mudou. Mudou a forma que eu encaro as coisas. Mudou a forma que eu encaro o tempo.

Eu deixei de pensar em anos e passei a pensar no máximo em semanas. “Viva um dia de cada vez”, como eu costumava dizer. E isso já me tirou um peso das costas impressionante.

Eu encontrei hobbies pelos quais me apaixonei. Coisas que eu sempre quis fazer desde pequeno, mas ou não tinha idade, ou não tinha grana. Ou os dois. Tempo eu continuo não tendo, mas isso nunca foi problema. “Quem quer dá um jeito”, dizia um grande pensador.

Eu passei várias noites em claro, mas eu consegui encontrar o caminho de volta. Eu estou bem sim.

Eu devo muito a “eles” e a você por isso. “Eles” têm grande parcela de culpa de eu ter (re)encontrado o meu caminho. Isso mostra que eu posso ter feito um monte de escolha errada na vida mas escolhi as pessoas certas para chamar de amigo. O fato de “eles” não terem desistido, mesmo quando eu desisti só aumenta ainda mais o respeito que eu tenho por “eles“.